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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Quando a primeira impressão engana - Troglodytes musculus Naumann, 1823

Muitos nomes científicos informam diretamente as características marcantes de uma espécie. Mas será que isso acontece com todos os nomes? Como você imagina um ser nomeado Troglodytes musculus Naumann, 1823?

Troglodytes musculus Naumann, 1823 (Passerida: Troglodytidae)

Etimologia:
Troglo = caverna ou cavidade.
dytes = entrar.
mus = camundongo.
culus = pequeno ou diminutivo.

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Troglodytes musculus. Fonte: Priscilla Diniz
Troglodytes musculus pode até parecer um nome dado a bárbaros pré-históricos, que caçavam mamutes e brigavam com tigres-dente-de-sabre. De fato, há uma relação direta entre o termo Troglodytes e os famosos “homens das cavernas”. Não à sua suposta truculência, mas sim ao hábito de morar em cavernas.

Na verdade, Troglodytes musculus é uma pequena ave que não vive em cavidades, mas as utiliza para fazer seus ninhos. Tais cavidades podem ser as mais diversas, desde buracos em árvores e ninhos abandonados por outras aves até orifícios encontrados em muros, encanamentos e outros lugares. Um verdadeiro troglodita adaptado à vida no campo e nas cidades!

Esta ave mede de 10 a 12 cm de comprimento, sendo um dos menores pássaros encontrados em áreas urbanas, estando presente também em outras áreas abertas. Possui coloração amarronzada com tons avermelhados próximo à cauda e claros nas partes inferiores, barras escuras nas asas e cauda, patas curtas e bico alongado proporcional ao tamanho da cabeça. Esta espécie é conhecida popularmente como “corruíra”, “carriça” e “cambaxirra”.

Troglodytes musculus costuma saltitar pelo solo e por vegetações baixas, procurando alimento. É predominantemente insetívora, embora também coma frutos, sementes e alguns animaizinhos, como pequenas aranhas e filhotes de lagartixas. Além do pequeno tamanho, coloração e hábito de se mover próximo ao chão lembrarem os camundongos, uma das vocalizações mais frequentes desta espécie é similar ao guincho de um roedor.

Troglodytes musculus. Fonte: Bianca P. Vieira
A família desta espécie, Troglodytidae Swainson, 1831, é conhecida por conter espécies com vocalizações bem elaboradas, algumas de grande beleza. Talvez você já tenha ouvido falar no uirapuru (Cyphorhinus arada), uma espécie amazônica considerada por muitos como detentora do canto mais bonito de todas as aves brasileiras. Mas, não pense que é preciso fazer uma expedição até a selva para se deleitar com as vozes desses pequenos trogloditas. Troglodytes musculus também possui vocalizações muito bonitas.

A distribuição de T. musculus é restrita às Américas Central e do Sul, estando presente em todo o Brasil e chegando até ao sul da Argentina. Até recentemente, a espécie era mais conhecida como T. aedon, mas hoje este nome se refere apenas às populações encontradas na América do Norte, que apesar de idênticas à corruíra presente na América do Sul, constituem espécie distinta. Além de T. musculus, na América do Sul e Central, e de T. aedon, na América do Norte, outras 10 espécies estão no gênero Troglodytes:

T. troglodytes Linnaeus, 1758 = América do Norte, Europa e Ásia.
T. brunneicollis Sclater, 1858 = México continental.
T. tanneri Townsend, 1890 = ameaçada de extinção e endêmica da Ilha Clarión, no Oceano Pacífico.
T. cobbi Chubb, 1909 = ameaçada de extinção e endêmica das Ilhas Malvinas.
T. sissonii Grayson, 1868 = quase ameaçada de extinção e endêmica da Ilha de Socorro, na costa do Pacífico.
T. solstitialis Sclater, 1859 = região dos Andes.
T. monticola Bangs, 1899 = ameaçada de extinção e endêmica do norte da Colômbia.
T. ochraceus Ridgway, 1882 = endêmica da Costa Rica e leste do Panamá.
T. rufociliatus Sharpe, 1882 = América Central.
T. rufulus Cabanis, 1849 = norte da região Amazônica.

Com esse simpático pássaro, podemos notar que mesmo aqueles nomes científicos aparentemente fora de propósito tem sim uma razão de ser, e devemos ter cuidado ao sair interpretando seus significados com base em uma primeira impressão! 

Referências:
 

De La Peña, M. R.; Rumboll, M. 1998. Birds of Southern South America and Antarctica. Princeton: Princeton University Press, 304 p.
Develey, P. F.; Endrigo, E. 2004. Aves da Grande São Paulo: guia de campo. São Paulo: Aves e Fotos Editora, 298 p.
Gussoni, C. O. A.; Guaraldo, A. C. 2008. Aves do campus da UNESP em Rio Claro. Rio Claro, 174 p.
Höfling, E.; Camargo, H. F. A. Aves no Campus. 3ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002. 157 p.
IBC. The Internet Bird Collection. 2015. Disponível em: http://ibc.lynxeds.com/.


Autoria: Julio A. B. Monsalvo

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Vampiro inofensivo - Draculoides bramstokeri Harvey & Humphreys, 1995

Conde Drácula é, segundo o livro Guinness de recordes mundiais, o personagem de terror com maior número de aparições na mídia. Escrito pelo irlandês Bram Stoker, a história foi inspirada no príncipe romeno Vlad III, o Empalador, conhecido pela perversidade com que tratava seus inimigos. O que poucos sabem é que este vampiro está imortalizado na Ciência pelo aracnídeo Draculoides bramstokeri Harvey & Humphreys, 1995.

Draculoides bramstokeri Harvey & Humphreys, 1995 (Schizomida: Hubbardiidae)

Etimologia:
Dracul = (do romeno, Drăcul) demônio, diabo ou dragão.
-oides = (do grego, eidos) “parecido a” ou “com forma de”.
bramstoker = Bram Stoker.
-i = radical indicativo de que o epíteto é homenageia uma pessoa do sexo masculino.

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Draculoides bramstokeri. Fonte: Western Australian Museum.
Embora o morcego seja considerado a forma animal do vampiro, os aracnídeos se encaixam mais adequadamente no modo de ataque. Morcegos hematófagos fazem apenas um pequeno corte na presa com os dentes incisivos (os dentes da frente) e lambem o sangue que escorre. Já os aracnídeos, injetam um veneno através de um par de quelíceras, que lembram o formato de dentes caninos. O veneno dissolve os tecidos internos das vítimas para que sejam sugados. Por isso, o pesquisador australiano Mark Harvey batizou o gênero Draculoides em homenagem ao personagem. Anos depois, este mesmo pesquisador se juntou a William Humphreys para batizar uma espécie deste gênero com o nome do romancista Bram Stoker.

Apesar de ser um aracnídeo, D. bramstokeri é um esquizomídeo, e não uma aranha. Draculoides bramstokeri possui o corpo marrom amarelado brilhante de cerca de 5 mm de comprimento. Como os outros esquizomídeos, seu corpo é dividido em cefalotórax e abdômen. No cefalotórax, há um par de pedipalpos robustos, um par de quelíceras e quatro pares de patas, sendo o primeiro par mais fino e alongado. O abdômen é alongado, coberto de espinhos e termina em um flagelo. Porém, ao contrário de outros grupos da classe Arachnida, esta espécie não possui olhos.

Draculoides sp. Fonte: spinweb.com.
A espécie reside nas profundidades de diversas cavernas da Ilha de Barrow, noroeste da Austrália. Além de D. bramstokeri, o gênero Draculoides compreende mais cinco espécies descritas (D. brooksi, D. julianneae, D. mesozeirus, D. neoanthropus e D. vinei), todas endêmicas do noroeste australiano. A diferenciação entre as espécies se dá pelo número e forma de espinhos no abdômen.

Apesar do nome inspirado em um monstro sugador de sangue humano, Draculoides bramstokeri é inofensivo para os seres humanos. Todavia, o ser humano tem ameaçado o habitat desta espécie. Draculoides bramstokeri vive em cavernas, um ecossistema que tem sido explorado em atividades de turismo de aventura. Por isso, ele é considerado ameaçado de extinção segundo a lista publicada pela Divisão de Meio Ambiente do Governo de Austrália. 

Draculoides bramstokeri é apenas uma entre milhares de espécies incríveis que ainda podem ser descobertas no subterrâneo da terra. Mas, também nos alerta para a necessidade de conservarmos ambientes tão delicados como as cavernas. Conde Drácula e Bram Stoker foram imortalizados pela Ciência, mas quantas espécies esperam ser descobertas em cavernas pelo mundo? 



Referências: 

Harvey, M. S.; Berry, O.; Edward, K. L.; Humphreys, G. 2008. Molecular and morphological systematics of hypogean schizomids (Schizomida: Hubbardiidae) in semiarid Australia. Invertebrate Systematics, 22(2): 167-194. 
Humphreys, G.; Alexander, J.; Harvey, M. S.; Humphreys, W. F. 2013. The subterranean fauna of Barrow Island, northwestern Australia: 10 years on. Records of the Western Australian Museum Supplement, 83: 145-158. 
Department of Enviroment of Australian Government, 2015. EPBC Act List of Threatened Fauna. Disponível em http://www.environment.gov.au/cgi bin/sprat/public/publicthreatenedlist.pl.

Autoria: Mauro F. Ramírez, 2015

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Miss Bumbum Dourado do Reino Animal - Plinthina beyonceae Lessard, 2011

O carnaval está chegando! Nesta época do ano, os corpos ficam em evidência e é a paixão nacional a parte que chama mais a atenção. Sim, o bumbum!
Engana-se quem acredita que só os seres humanos possuem bumbuns avantajados. Conheça a Miss Bumbum Dourado do Reino Animal, Plinthina beyonceae Lessard, 2011.


Plinthina beyonceae Lessard, 2011 (Diptera: Tabanidae)

Etimologia:
Plinthina = (do latim, Plinthus) base da coluna ou pedestal.
beyonce = Beyoncé Knowles.
ae = radical indicativo de que o epíteto é homenageia uma pessoa do sexo feminino.

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Plinthina beyonceae é a homenagem feita por cientistas à atriz e cantora pop internacional Beyoncé Knowles, ao nomear uma rara de mosca-de-cavalo dona de um grande bumbum dourado. A mosca possui o abdômen avantajado coberto por pelos dourados, lembrando a roupa usada por Beyoncé no clipe “bootylicious” de 2001.


Plinthina beyonceae. Fonte: Lessard, 2014.
Plinthina beyonceae possui apenas 9 mm de comprimento. O par de asas membranosas é acastanhado e os três pares de patas são alongados e simétricos. A espécie foi coletada em 1981, mesmo ano de nascimento de cantora, mas descrita oficialmente apenas em 2011, pelo pesquisador Bryan D. Lessard.

A alimentação das moscas-de-cavalo varia conforme o sexo. Machos se alimentam do néctar das flores e possuem um papel fundamental na polinização de eucaliptos e mirtáceas, por exemplo. Fêmeas se alimentam de sangue humano e animal. Por isso, as moscas-de-cavalo são consideradas praga e vetores de doenças como a loíase, tularemia e antraz.

A espécie Plinthina beyonceae é endêmica do norte e nordeste da Austrália. Há outras 11 espécies neste gênero, e todas ocorrem apenas na Austrália:

P. arnhemensis Lessard, 2011.
P. aurifulga Lessard, 2011.
P. binotata Latreille, 1812.
P. clelandi Ferguson, 1921.
P. cinerea Ricardo, 1915.
P. divisa Walker, 1850.
P. nelsonae Lessard, 2011,
P. nigerrima Mackerras, 1960.
P. nigripuncta Lessard, 2011.
P. subcinerea Mackerras, 1960.
P. vertebrata Bigot, 1892.

Anteriormente, Plinthina era considerado um subgênero de Scaptia. Mas, por que não é mais?! Estudos mais aprofundados da morfologia e organização molecular de Plinthina evidenciaram que o grupo tem dados robustos para ser elevado a gênero.

Apesar de parecer confuso, esta reorganização é comum na Sistemática. Antigamente, os seres eram classificados majoritariamente de acordo com o seu fenótipo (morfologia). Todavia, os avanços em métodos de estudos moleculares permitiram maior confiança nas análises sobre a história evolutiva das espécies.

Referências:

Lessard, B. D. 2014. Revision of the austral horse fly tribe Scionini (Diptera: Tabanidae). Australian Entomological Society, 53: 203–239.
Lessard, B. D.; Yeates, D. K. 2011. New species of the Australian horse fly subgenus Scaptia (Plinthina) Walker 1850 (Diptera: Tabanidae), including species descriptions and a revised key. Australian Journal of Entomology, 50: 241–252. 

Autoria: Rayanne F. Ayres, 2015