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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Vampiro das profundezas - Vampyroteuthis infernalis Chun, 1903


Diversas histórias tentam explicar o surgimento dos vampiros. Lendas antigas dizem que a alma de um suicida deixaria seu sepulcro durante as noites para atacar os humanos, sugar seu sangue e retornar como morcego para as profundezas antes do nascer do sol. O mais louco é que, nesse caso, não é um “vampiro que volta para as profundezas”, mas uma lula vampira-do-inferno nas águas profundas dos oceanos! Dando continuidade à saga de vampiros, apresento-lhes Vampyroteuthis infernalis Chun, 1903.

Vampyroteuthis infernalis Chun, 1903 (Vampyromorpha: Vampyroteuthidae)

Etimologia:
Vampyro = (do húngaro, Vampir) bruxa.
teuthis = (do grego antigo, teuthis) lula.
infernalis (do latim, infernus) = abaixo.

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A lula-vampiro Vampyroteuthis infernalis é pequeno, medindo de 13 a 30 cm. Como outros cefalópodes, possui oito tentáculos e locomove-se através de propulsão a jato. Sua cor é negra, mas pode variar em roxo, vermelho e marrom, de acordo com a iluminação. Seu nome relaciona-se à coloração escura e avermelhada, que inspirou alguns naturalistas a descreverem-na como "um polvo muito pequeno, mas terrível. Negro como a noite, com mandíbulas brancas e olhos vermelhos de sangue". Apesar da descrição assustadora, observações comportamentais indicam que este animal é muito dócil.

Vampyroteuthis infernalis. Fonte: National Geographic.
Vampyroteuthis infernalis é uma relíquia filogenética, ou seja, uma raridade na história evolutiva dos grupos taxonômicos. Este grupo possui características de lulas e decápodes (grupo de crustáceos como camarões, lagostas e caranguejos). Além disso, ele tem muitas características que são provavelmente adaptações ao alto-mar. Entre estas, estão ausência da bolsa de tinta, usada para defesa em outros cefalópodes; bioluminescência na ponta dos tentáculos; e consistência gelatinosa dos tecidos para aguentar a pressão das águas profundas.

Apesar de ser popularmente conhecido com lula, este animal é o único representante vivo da ordem de lulas-vampiro Vampyromorphida, pertencente à classe Cephalopoda (moluscos marinhos como polvos, lulas, sépias e náutilos). Vampyroteuthis infernalis pode ser encontrado em profundidades entre 600 e 1200 m das águas temperadas e tropicais dos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico.




Referências:
Pickford, G. E. 1949. Vampyroteuthis infernalis Chun an archaic dibranchiate cephalopod. II. External anatomy. Dana-Report No. 32: 1-132. 

Seibel, B. A.; Thuesen, E. V.; Childress, J. J. 1998.Flight of the vampire: ontogenetic gait-transition in Vampyroteuthis infernalis (Cephalopoda: Vampyromorpha). The Journal of Experimental Biology 201: 2413-2424.

Autoria: Bruna A. G. de Barros

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Hasta la vista, baby! - Agra schwarzeneggeri Erwin, 2002


Quando pensamos em um homem forte, um dos nomes que nos vem em mente é o do ator Arnold Schwarzenegger! Não é para menos, o ator e político norte-americano foi fisiculturista e é dono de uma musculatura extremamente forte e definida. Assim como o ator, um besouro habitante dos bosques tropicais de Costa Rica apresenta musculatura definida, o que rendeu a homenagem através do nome Agra schwarzeneggeri Erwin 2002.

Agra schwarzeneggeri Erwin, 2002 (Coleoptera: Carabidae)

Etimologia:
Agra = (do grego, akros) afiado, acentuado.
Schwarzenegger = Arnold Schwarzenegger
-i: radical indicativo de que o epiteto específico homenageia uma pessoa do sexo masculino

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Agra schwarzeneggeri é uma espécie de besouro endêmica dos bosques da Costa Rica. Os indivíduos
Macho de Agra schwarzeneggeri. Fonte: Karie Darrow, Smithsonian Institution.
desta espécie são de pequeno porte (14 a 17 mm de comprimento) e apresentam cor preta iridescente. Seu nome foi dado porque o fêmur do segundo par de patas do macho apresenta uma forma alargada e parecida ao bíceps humano, o que lembra o físico hipertrofiado do conhecido ator de Hollywood e ex-governador do estado de Califórnia (EUA), Arnold Schwarzenegger.

As espécies do gênero Agra caracterizam-se por apresentar a porção anterior do tórax e a cabeça alongadas, justificando o nome do gênero. Os adultos são voadores noturnos e geralmente achados no dossel dos bosques. Existem registros de espécies predadoras de outras espécies de artrópodes, mas também de espécies que se alimentam de folhas e seiva de árvores. As fêmeas de Agra schwarzeneggeri apresentam um ovipositor telescópico (órgão tubular alongado através do qual colocam os ovos), utilizado para depositar os ovos profundamente no substrato.

Agra schwarzeneggeri apresenta um sistema de defesa contra predadores que consiste em glândulas nos lados do abdômen. Estas glândulas produzem uma secreção irritante. O gênero Agra compreende mais de 600 espécies já descritas, mas existem coleções em museus com mais de 1.500 espécimes ainda por descrever. Os besouros deste grupo diferenciam-se por variações na distribuição de manchas e veias nos élitros (par de asas externas queratinizadas) e tórax, bem como pela distribuição de setas abdominais nos machos e pela forma e tamanho do edeago (órgão copulador do macho).

Mesmo que A. schwarzeneggeri não seja uma espécie diretamente ameaçada de extinção, o pesquisador Terry Erwin vem chamando a atenção para a importância de manter preservado o ambiente natural destes animais. Estes besouros vivem em bosques tropicais do continente americano. Para chamar a atenção em relação ao desmatamento deste ambiente, o pesquisador já nomeou várias espécies com nomes de famosos, como Kate Winslet e Liv Tyler. As atrizes foram escolhidas por seus papeis em Titanic e Armageddon.

Muito depende de nós para que estas e milhares de outras espécies habitantes dos bosques tropicais não afundem como o Titanic ou ainda, que sejam destruídas em Armageddon. Nossas atitudes podem evitar que a famosa frase do robô interpretado por Arnold Schwarzenegger no filme O Exterminador do Futuro seja ironicamente pronunciada para os bosques da Costa Rica. Não queremos dizer “hasta la vista, baby”.


Referências:
Erwin 2002. The Beetle Family Carabidae of Costa Rica: Twenty-nine new species of Agra Fabricius 1801 (Coleoptera: Carabidae, Lebiini, Agrina). Zootaxa 119, 1-68.
Erwin 2010. Agra, arboreal beetles of Neotropical forests: pusilla group and piranha group systematics and notes on their ways of life (Coleoptera, Carabidae, Lebiini, Agrina). Zookeys 66, 1-28.

Autoria: Mauro F. Ramírez

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Vespa ou fada? - Tinkerbella nana Huber & Noyes, 2013


Será que fadas existem apenas em contos?! Bom, a Ciência  já se encarregou de tornar estes seres uma realidade! Ou pelo menos em nome! A querida e conhecida fadinha Tinker Bell, do Peter Pan, foi recentemente homenageada em uma minúscula vespa, Tinkerbella nana Huber & Noyes, 2013.

Tinkerbella nana Huber & Noyes, 2013 (Hymenoptera: Mymaridae)

Etimologia:
Tinkerbell = Tinker Bell, fada da peça Peter Pan.
-a = radical indicativo de que o gênero homenageia um ser do sexo feminino.
nana = Nana, cão de Peter Pan. O termo também pode ser considerado como de origem em nanus, do grego, anão; e tratado como pronome feminino em concordância com o gênero.

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Tinkerbella nana é a mais nova espécie de vespa descoberta na Costa Rica. Esta vespa é de tamanho
Tinkerbella nana fêmea. Fonte: Huber e Noyes, 2013.
muito pequeno e suas asas apresentam um tipo de franja que lembra fadas místicas. Por isso, seu nome foi dado em homenagem à fada Tinker Bell, companheira de Peter Pan. A franja presente nas asas das vespas-fada ajuda a diminuir a turbulência durante o voo, pois qualquer brisa de ar que atinja animais tão pequeninos torna o deslocamento muito mais difícil. As longas pernas desta vespa-fada também estão relacionadas ao voo, ajudando a dar impulso para começa-lo. 

Tinkerbella nana é uma das menores vespas do mundo. Todavia, ela ainda perde o título de menor inseto com asas do mundo para outra vespa-fada, Kikiki huna. A vespa Kikiki huna possui 158 μm e é encontradada nas ilhas havaianas, Austrália, Argentina, Costa Rica, Trindade e Tobago.

A espécie Tinkerbella nana apresenta diferenças morfológicas relacionadas ao sexo. As fêmeas são um pouco maiores que os machos, mas ainda assim são bem pequenas, com comprimento entre 225 e 250 μm. Sua coloração é pálida, mas algumas partes possuem uma tonalidade amarela ou marrom pálido, como a cabeça. Apresentam uma mancha marrom escura próxima à base da asa anterior e seus ocelos (olhos simples) são avermelhados. Já os machos, possuem de 210 a 230 μm, sua coloração é um pouco mais escura e os segmentos do corpo são mais curtos.

Essa espécie é tão diminuta que precisa ser observada em microscópio! Seu tamanho é vantajoso quando relacionado ao seu modo de vida. Assim como outras vespas-fada, Tinkerbella nana é parasita, colocando seus ovos dentro de larvas e ovos de outros insetos.

Tinkerbella nana fêmea. Fonte: Huber e Noyes, 2013.
Mas quão pequeno um inseto pode ser sem comprometer suas funções vitais? Segundo John Huber e John Noyes, os pesquisadores que descreveram Tinkerbella nana, as vespas-fada parecem atingir o tamanho mínimo que um inseto com asas pode ter. Conforme as estruturas internas e externas do corpo diminuem, começa haver uma limitação da função que podem exercer. Um mínimo de células é necessário para que um órgão exerça determinada função, como caminhar, enxergar ou digerir o alimento.

Mesmo sendo tão pequena, Tinkerbella nana parece ter todas as funções vitais semelhantes às de um inseto visto a olho nu. Esta diminuta fadinha ocorre nas florestas da Costa Rica, principalmente da província de Alajuela. Porém, ainda não há muitas informações disponíveis sobre o comportamento de Tinkerbella nana. Por ser também um gênero descrito apenas recentemente, outras espécies irmãs são desconhecidas.


Referência:
Huber, J. T.; Noyes, J. S. 2013. A new genus and species of fairyfly, Tinkerbella nana (Hymenoptera, Mymaridae), with comments on its sister genus Kikiki, and discussion on small size limits in arthropods. Journal of Hymenoptera Research, 32: 17-44.

Autoria: Nayara de C. Chaves