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sábado, 4 de abril de 2015

Mitologia e golfinhos - Stenella clymene (Gray, 1846)



Apesar de muitos pensarem que a Ciência é uma antítese das antigas crenças e religiões, em inúmeros momentos o conhecimento científico e a mitologia andam juntos. Como já abordado nos textos sobre “O chupa cabra alado da Europa” e “Vampiro das profundezas”, muitas vezes os taxonomistas se baseiam em antigos mitos para nomear uma espécie. A mitologia grega, com incontáveis personagens, tramas e genealogias elaboradas, tem sido uma fonte inesgotável de inspiração para a Taxonomia. Em alguns casos, porém, a verdadeira história da espécie parece quase tão pitoresca quanto os mitos da Grécia Antiga! Este é o caso de Stenella clymene (Gray, 1846).

Stenella clymene (Gray, 1846) (Cetacea: Delphinidae)

Etimologia:
Sten = (do Grego, stenós) estreito.
ella = (do Latim, ellus)  pequeno.
clymene = ninfa da mitologia grega, e também notório, de destaque.

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Na mitologia grega, Clímene era uma das mais conhecidas Oceânides, ninfas do fundo do mar. Havia nada mais, nada menos do que 3.000 Oceânides, filhas todas dos titãs Oceano e Tétis! Pois é, e você aí achando que o Mr. Catra tem muitos filhos!!!

Clímene por sua vez também teve uma porção de descendentes, dos quais o mais famoso é provavelmente o herói Prometeu. Clímene é a patronize da fama e não há mamífero marinho mais famoso do que os golfinhos!

Stenella clymene. Fonte: Kate Sprogis 2011
Stenella clymene é um golfinho de porte médio, com cerca de 2 m de comprimento, corpo robusto enadadeiras relativamente pequenas. A coloração tem três tons, com manto dorsal escuro, barriga branca e uma faixa intermediária cinza-claro. Seu bico (nome dado ao focinho de alguns cetáceos) tem ponta escura e não é muito longo, motivo pelo qual ele também é chamado de golfinho-rotador-de-bico-curto. O nome remete ao golfinho-rotador (S. longirostris), espécie muito similar, conhecida no Brasil também como “o golfinho de Fernando de Noronha”. O termo rotador, por sua vez, faz referência ao comportamento de giros, ou seja, saltar da água rodopiando no eixo do próprio corpo, quase como um pião!

O golfinho-clímene é endêmico das regiões tropicais e subtropicais do Oceano Atlântico, incluindo o Brasil, e parece não ser comum. Vive geralmente em bandos pequenos, longe da costa, alimentando-se de lulas e pequenos peixes, inclusive durante a noite. O conhecimento disponível sobre suas populações é tão escasso que não se sabe se estão ou não ameaçadas de extinção!

A história de S. clymene tem mais similaridades com a mitologia grega do que se pensa. Algum tempo após sua descrição original pelo zoólogo britânico John Edward Gray no século XIX, S. clymene passou a ser considerada apenas uma subespécie de S. longirostris. Apenas na década de 1980 foi verificado realmente ser uma espécie distinta plena.

Stenella clymene. Fonte: NOAA, 2012
Em 2014, análises de DNA demostraram que S. clymene seria realmente um híbrido, e as espécies envolvidas nessa hibridação natural seriam S. longirostris e S. coeruleoalba (golfinho-estriado). Essa descoberta é um dos poucos casos conhecidos de “especiação híbrida” em mamíferos. Especiação híbrida significa que duas espécies distintas podem cruzar e ter descendentes férteis. É como se a mula, cruzamento do burro e do cavalo, não fosse estéril e pudesse ter descendentes com outras mulas. Apesar de já comprovada a existência da especiação híbrida, tal ideia vai contra a noção geral de que descendentes de animais híbridos são inviáveis.

Assim como os personagens mitológicos criados com partes de diversos seres, como os centauros, grifos e pégasos, Stenella clymene mostra que não é somente no mundo da fantasia que duas criaturas diferentes conseguem produzir descendentes! E que hibridação pode ser um mecanismo mais importante do que se pensava para a evolução de novas espécies.

Referências:

Amaral, R. A. et al. 2014. Hybrid speciation in a marine mammal: the clymene dolphin (Stenella clymene). PLoS One, 9(1): e83645.
Carwardine, M. 2000. Whales, dolphins and porpoises. Dorling Kindersley, Londres. 256 p.
Hetzel, B.; Lodi, L. 1993. Baleias, botos e golfinhos: guia de identificação para o Brasil. Nova Fronteira, Rio de Janeiro. 280 p. 

Nowak, R. M. 2003. Walker’s marine mammals of the world. The John Hopkins University Press, Baltimore. 264 p.

Autoria: Julio A. B. Monsalvo

domingo, 29 de março de 2015

O lado negro da força! - Epeorella vadora (Webb & McCafferty, 2007)


Com esse título, você deve ter pensado na franquia Star Wars, certo?! Bom, a ideia inicial era escrever sobre Darthus vadorus, nome inspirado em Darth Vader, mas as buscas sobre esta espécie levaram a um resultado intrigante, a taxonomia também possui um lado negro da força! Conheça o “Anakin Skywalker” que deixou a luz, foi para o lado negro da força e, no final, redimiu-se, Epeorella vadora (Webb & McCafferty, 2007).

Epeorella vadora (Webb & McCafferty, 2007) (Ephemeroptera: Heptageniidae)

Etimologia:

Epeo = personagem grego criador do cavalo de Tróia.
rella = mensageiro, anjo.
vadora = Darth Vader.

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Efeméridas são insetos de forma única, com corpo longo e asas longas, lembrando um pouco as libélulas. Efeméridas pertencem à ordem Ephemeroptera (do grego, curta duração), referência ao tempo de vida dos adultos, que pode durar apenas alguns dias. O tempo é suficiente para procura do parceiro, reprodução e postura de ovos em sua fase alada. Todavia, a vida destes insetos não é assim tão curta, pois a fase larval pode viver por até um ano. As larvas desse grupo servem de alimento para peixes, inclusive servindo de modelo para iscas de pesca.
Epeorella vadora. Fonte: Satori 2014.

Epeorella vadora pertence à Heptagniidae e se difere de E. borneonia pelo padrão diferenciado da coloração do abdômen. São conhecidas mais de 600 espécies distribuídas em 33 gêneros neste grupo. O gênero Epeorella possui duas espécies, E. vadora e E. borneonia, ambas endêmicas de Bornéu.

Os pesquisadores Webb e McCafferty haviam descrito Epeorella vadora como Darthus vadorus em 2007, porém Michel Satori verificou que as larvas utilizadas na descrição deste novo gênero Darthus, na verdade, possuíam as mesmas características das larvas do gênero Epeorella. O equívoco na descrição da espécie se deu possivelmente à pressa dos pesquisadores Webb e McCafferty em descrever espécies sem espécimes suficientes analisados.


Referências:
Hyatt, A.; Arms, J. M. 1891. A novel diagrammatic representation of the orders of insects. Psyche, a Journal of Entomology, 6(177): 11-13.
Sartori, M. 2014. On the validity of Epeorella Ulmer, 1939 (Ephemeroptera, Heptageniidae) with general considerations on the Heptageniidae of the Sunda Islands. ZooKeys, (445): 97.
Webb, J. M.; Mccafferty, W. P. 2007. A new genus and species of Heptageniidae (Ephemeroptera) from Borneo, with revisions to the classification of the Ecdyonurinae. Zootaxa, 1478: 41-48.


Autoria: Suzane Melo